quarta-feira, 1 de julho de 2026

doce, dengosa, polida...

4h04 de uma madrugada fria, quando eu estou sem óculos ela parece uma tela de expressionismo. Ela é bonita, até quando eu vejo ela borrada, sem make, sem batom vermelho, sem cabelo feito, sem nada. Ela é bonita em sua intimidade, mais do que em qualquer outra forma.
Enfim.
Olhei pra ela enquanto ela dormia e a vontade de fugir dessa situação me dominou mais rápido, dessa vez. Há um abismo entre o que eu faço e o que eu penso em fazer. Pensei em sair pela porta da cozinha, descer os nove andares correndo, subir a serra voando... Mas seu corpo quente parecia um ímã, arrastando meu olhar mesmo, guardando todo meu afeto e sentimentalismo. Sua cabeça no meu ombro, os seios dela encostados na minha barriga enquanto ela dorme e sequer imagina que eu não tenho mais nada pra oferecer pra ela. Nada. Não tenho mais perspectiva e muito menos expectativa, só tenho um amor que me domina. Mais nada. Não me vejo num futuro ao lado dela, não mais. A gente deixou isso pra trás, mas isso não anula o fato de que eu gosto dessa mulher, eu gosto mesmo dela. Ela ocupa uma boa parte dos meus desejos, na real. Uma boa parte da minha vontade.
E é justamente por isso que eu nunca vou saber explicar quando foi que a gente parou de dar certo e começou a dar tão errado, empurrando as brigas pra debaixo do tapete e usando trepadas como Band Aid, numa tentativa desesperada de curar tudo que dói. De transformar cada briga, discussão, "traição", cada ação que me deixou bad, em passado.  Fingindo superar cada baque emocional só pra transar sem lidar com nada. Puro apego. Puro suco do desespero emocional e egoísmo, eu sei. Eu já deveria ter esquecido essa história. Eu já deveria ter tirado essa mulher da minha vida como eu faço com qualquer outra mulher que me irrita, mas ela me deixa assim, travada.
Igual agora.
Que eu quero fugir ao mesmo tempo que escrevo esse texto decadente depois de lamber seu corpo inteiro, sem arrependimento mas com um desespero imenso sem precedentes. Revivendo tudo, de novo e de novo... Puro ego. Puro conforto. Ela sabe que eu sempre vou vir quando ela me chamar, se eu for falar de amor, eu vou falar pra caralho sobre ela e se eu for falar de vício, eu sou viciada na buceta dela.
Mas...
Eu já não quero passar minha vida lutando pra esquecer, esquecer que eu amei, que eu me doei, que eu quis, que eu chorei, que eu quis muito que tudo tivesse dado certo, há dezessete verões atrás, na real... enfim, eu fiz o que pude e isso inclui entender que eu não posso anular ou esquecer que eu também errei, que eu traí, que eu sempre mandei "beijo, boa noite, te amo" e  flores enquanto eu batia no rabo de outras mulheres, que eu transei com a mina que ela mais odiava porque eu estava com raiva. Na real, ainda transo às vezes, muito raramente. Eu sei os pontos que doeram nela, assim.como reconheço o que dói em mim. E eu preciso escrever sobre isso. Não pra me livrar da responsabilidade, mas pra entender o espaço que isso ainda ocupa dentro da minha caixinha da culpa, enfim. Não há arrependimentos, não tenho como mudar os fatos do passado, mas eu... Às vezes eu queria que tudo tivesse sido minimamente diferente.
Ela ferve meu peito. É isso que ela não acredita ou não entende.
Eu não queria que saber que ela fica com outras pessoas me afetassem, mas afeta. No silêncio da minha verdade, afeta. Às vezes eu nem entendo porque ela continua pregada com super bonder na minha memória.
De verdade, ela teria de mim o que quisesse se ela assim, o quisesse. Entende? Eu aguardo pelo dia em que a gente vai se olhar e entender que cada situação que vivemos foram relevantes, o primeiro beijo,.sexo, amor, o primeiro baseado. Tudo. Mas em contrapartida, às vezes, eu torço pelo dia em que seu nome será protegido pelo meu esquecimento.
Sei lá.
O sentimento é mil grau.


Share:

0 comments: