terça-feira, 16 de junho de 2026

eu bebo um pouquinho pra ter argumento

Parece um surto, dissociação, não sei que porra é essa. Mas eu sempre acordo tão próxima dela como se fosse algum tipo de feitiço, de ímã ou sei lá o que é. Mas é.
Ela é tão bonita quando eu tô comendo ela com a fome de quem não coloca as mãos em uma mulher há tanto tempo,  como se eu tivesse todo esse tempo reservando meus pensamentos mais inadequados pra essa mulher.
Ela é meu amor de verão, de vários verões. Não é estranho que estejamos revivendo isso o tempo todo e revirando os sentimentos como se não isso não fosse resultar em um longo questionamento, ciúmes, outros sentimentos e uma sessão de terapia extra essa semana, na expectativa de enxergar isso da melhor forma possível e tentar lidar com a forma que tudo isso me impacta.
É complicado falar sobre ela.
Sempre foi.
Desde que ela era só uma caiçara bonita que conhecia altos picos pra fumar maconha e eu fosse só uma turistinha em busca de alguma adrenalina praiana e beijo na boca, que teve seu coração beliscado por ela.
Mas eu não posso me vitimizar nessa situação. Tudo que ela me ofereceu, ela teve em dobro. Essa é justamente a problemática toda da parada. Eu quis ser porto seguro e acabei não sendo nem mesmo uma bóia furada, próxima demais do ego e longe demais de oferecer o mínimo de estabilidade emocional, afetiva. Sei lá. De que adianta eu ter enchido a cama dela de buquês de flores amarelas, se eu estava deitada em outras camas depois das mensagens de "boa noite, te amo!"? Porra nenhuma. Agora talvez não faça tanta diferença, também. Os anos passaram e tanta coisa mudou, nós amadurecemos, mas tanta coisa ainda paira entre nós, um misto de atração, amor, saudades, vaidade, ego... Tudo misturado. Eu não esqueço nada de ruim que fizemos uma pra outra, mas eu nunca venho até o nono andar pra me explicar, também. Então o que importa se o que passou, passou e ainda estamos aqui? Talvez não exatamente no formato que eu idealizei aos vinte e seis, nem mesmo aos dezesseis quando era ainda tão menina enlouquecida e entorpecida, literalmente, por ela.
Enfim.
Ela ainda me gera um arrebate no peito.
Um frio na barriga difícil de controlar, uma vontade imensa de sair correndo, mas ao mesmo tempo ficar. Não sair do lado dela nunca mais, não sei. Ao mesmo tempo que entendo que essa porra nunca vai dar certo. Mas caralho, ela me olhava com aquela cara que ela faz que ela sabe que eu gosto, mas me assusta, ainda me impressionam os olhares dela pra mim.
Era próximo das 3h, ela me serviu uma dose de whisky, bolou meu baseado enquanto conversávamos sobre tudo e nada, ao mesmo tempo. Desde quando paramos de falar sobre nós? Não sei, não percebi.
Mas agora tudo que temos é resumido à isso aqui: voltas emocionais, vícios carnais e só. Nós duas transando pra caralho enquanto eu embaralho meus sentimentos num bololô sem fim. Faço uma mistura do que sinto e do que eu deixei de sentir, mas o que eu esperava vindo até aqui? Além de uma sessão de bucetada braba, pra quando eu ir embora o cheiro dela ter grudado na minha blusa, nos meus dedos, nos meus poros? Eu não sei. Às vezes não sei nem como me sinto. Eu sei que ainda gosto, mas não sei mais o que é o amor, eu sei que quero ter essa mulher, mas não tanto ao ponto de prender ou pertencer. Às vezes penso que quero que ela seja minha, mas aí me lembro que eu não poderia nunca estar nas garras dessa mulher e nem mesmo quero meu nome gravado num anel em seu dedo anelar, mas sinto cada um dos anéis de sua buceta enquanto eu transo com ela pra passar o tempo e matar o tédio, dando tapas em seu rosto sem o mínimo de dó, escondendo entre suas coxas muito do meu sentimento e chorando com qualquer acorde de Joni Mitchell na sala branca e inóspita da casa dela.
Eu penso que poderia tranquilamente viver sem essa mulher encostando a existência dela na minha, mas aí ela me olha, me passa o baseado, senta no meu colo e me obriga à sentir seus lábios molhados. Talvez ali, tenhamos algo especial pra ambas.
E sendo honesta? Na presença dela, eu entendo que a vida odeia ser simples. 


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