segunda-feira, 5 de maio de 2025

devolve meu sono

Eu penso demais. Racionalizo o máximo que posso, quebro tudo em pedacinhos na minha cabeça. Mas, ainda assim, eu sinto. Juro, eu sinto.
Eu acredito que sentimento é só uma reação química, psíquica, uma resposta automática da mente.
Como se a cabeça fosse uma salinha apertada, cheia de papelada e carimbos, onde tudo precisa passar por um protocolo antes de existir.
E olha... nada me faz acreditar no contrário.
Mas agora... agora, meu corpo ainda quente do que aconteceu, eu percebo: tem coisa que escapa. Tem coisa que fura protocolo, ignora senha, invade a sala sem bater.
Tipo ela.
Ontem o apartamento dela ali, no mesmo nono andar de sempre, estava com cheiro de vinho barato, baseado e cigarro Marlboro Blue Ice esquecido, queimando solitário no cinzeiro. E, ainda assim, era um lugar onde eu queria ficar.
A música baixa tocava Nana Caymmi como se nosso querer prestasse, fosse digno. O sofá desarrumado, e ela me olhando como se já tivesse me despido horas antes. Talvez tivesse.
Mas enfim, voltando pra mim... Quando ela encostou na minha cintura, foi como se alguém desligasse a luz da salinha burocrática dentro de mim. Silêncio. Nenhuma planilha. Nenhuma dúvida. Nenhuma demanda especial. Só toque. O toque dela. Calmo, mas firme, suave e claramente cheio de intenção. E eu, que sempre controlo tudo, deixei.
Mas agora é domingo à noite. E a culpa chegou. Atrasada, mas chegou.
Veio com a mesma força daquele beijo, mas sem o mesmo gosto. Veio como um sussurro de um lamento triste ao pé do ouvido.
Porque não devia ser ela, com ela.
Porque eu não devia querer de novo.
Porque, mesmo racionalizando tudo... eu sinto.
Sinto culpa.
Sinto desejo.
Sinto ela, ainda.
E o pior?
Quero sentir de novo.


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terça-feira, 29 de abril de 2025

cê gosta de me ver sair com o coração partido, ontem eu tava bem, hoje eu tô f#dida

ontem à noite
bebi do teu veneno
direto do cálice,
escorrendo quente
entre tuas pernas.

e eu sorria,
com o a boca,
com o corpo inteiro,
entregue. 

minhas mãos te leram devagar,
como quem aprende o afeto
na sede,
na fome,
sendo afetada.

gozamos como quem morre 
ou
um pouco,
muito,
várias vezes.

mas hoje,
acordei vazia.
o coração ainda teu,
mas, a mente inundada de culpa.

um gosto amargo na boca,
uma saudade queimando no peito,
como se o amor tivesse virado fumaça
e se enfiado nos meus olhos
só pra arder.

é ressaca de gozo,
rebordosa de querer demais,
de me perder inteira em você
e só lembrar de mim
depois.


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sexta-feira, 25 de abril de 2025

antes mesmo

tem um momento
bem antes de eu te tocar
um nanosegundo, um instante quente, elétrico, intenso
em que eu já sei o que vai acontecer
mas ainda não aconteceu

é ali, entre o antes e o agora
que minha pele acende
como se meus dedos já estivessem lá
entre suas coxas
mas não estão

Não ainda,

é o quase
o desejo que arde involuntariamente em mim
um silêncio carregado, mas muito gostoso
porque é um único momento que eu sei exatamente o que virá 

e é tão breve, tão injusto
que quando passa
deixa um vazio latejando, pulsante
pronto pra ser ocupado
pela minha vontade de sentir você molhada

Mais uma vez.





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quinta-feira, 24 de abril de 2025

manual de sobrevivência para quem sente errado, capítulo 2

Analisar.
Perscrutar.
Investigar.
Dissecar sentimentos como quem tenta costurar o vento. Como quem enxerga o invisível.
E sinceramente? Eu tô cansada.
Cansa existir.
Cansa socializar.
Cansa entender, também.
Cansa mais ainda esse vazio que me habita com cara de pressa e gosto de ausência.
Como que eu vou falar do que sinto se até o que eu sinto parece.. errado, desalinhado? Se eu não me encaixo nesse sistema onde o sentir tem manual e fórmula? Se eu sequer consigo entender o que as outras pessoas falam sobre sentimentos? Eu acho que sequer sei interagir com outros seres existentes, não mais. Perdi o toque.
Penso demais, sinto de menos. Ou será o contrário? Sei lá. Tem horas que acho que desaprendi a ser gente. Será que eu nunca soube sentir ou foi exatamente isso que perdi? Sinto medo de que eu tenha desaprendido a sentir. Mas Alice me disse que o medo também é um "sentir". E só isso já me dá uma ponta de esperança.
E eu sigo aqui, buscando...
Uma infinita busca de mim mesma, buscando onde é que foi parar o meu toque, minha pele viva, meu “eu” de verdade. Onde será? Acho que fui deixando partes de mim pelo caminho, tipo aquelas roupas que a gente tira no meio da pressa e nem lembra onde deixou, sabe?
Mas não quero aceitar isso assim, de boa, como quem diz “é, fazer o quê...".
Quero me caçar. Eu gosto de um desafio, de encontrar e recuperar coisas perdidas... Sei lá.
Quero ir atrás da parte de mim que ainda sabe sonhar com gosto, com cor, com lágrimas, saliva, suor. Quero berrar até quebrar o eco que se esconde onde meu peito ainda sonha sem pedir desculpas.
No fundo acho que eu só queria encaixar.
Ser normal — seja lá o que isso for.
Sentir.
Expressar.
Acho que às vezes eu só quero me lembrar que tem um coração aqui, batendo baixinho, vermelho dormindo, teimoso, quieto...
Mas tá vivo.
Ainda tá vivo.
Ainda pulsa.


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quarta-feira, 23 de abril de 2025

manual de sobrevivência para quem sente errado

 Introdução 
(ou o mais próximo disso que eu consegui escrever)


Se você chegou aqui, talvez seja porque também tem um coração que tropeça nas próprias batidas.
Talvez também tenha sentido demais num mundo que parece pedir menos. Ou sentiu de menos, quando todo mundo jurava que devia doer mais.
Isso não importa, você está aqui agora e eu preciso lhe dizer que esse não é um manual com soluções.
É mais um inventário de falhas, sustos, ausências, tentativas. Um diário com cadeado. Uma ideia. Um mapa torto desenhado com mãos trêmula, mas ainda assim, um mapa. Ainda assim um manual de vivência própria. Ou sobrevivência própria.
Pra lembrar que existir assim, meio errada, também é um jeito de seguir viva. De pulsar. E que tem beleza em se perder quando o que se busca é verdade e o mínimo de conhecimento sobre si.
Não prometo salvação. 
Mas te prometo companhia.
Se não for o suficiente... Bom, você já está aqui agora.
E eu não posso fazer nada por você.


Página um:

Tô tentando aprender a respirar mesmo quando o peito não deixa.
Talvez eu tenha me esquecido de como o ar realmente entra, sem pressa, sem dor.
O truque é parar de esperar que ele venha como um alívio e deixá-lo ser, simplesmente.
Comecei a entender que respirar não precisa ter sentido, nem propósito. Só respiro e vivo a essência caótica da experiência e existência humana.
Inspiro o caos e expiro o vazio. Sem nunca me esquecer: até o silêncio pode ser preenchido com ar.
Estou no meio de uma crise de pânico agora.  Eu queria dormir ou não existir. Eu tenho certeza absoluta que meu coração vai parar de bater em pouco tempo.
Mas...
...Eu ainda estou aqui, respirando.
E sigo.
Tempo, tempo, tempo.
Eu só respiro, é só isso que eu faço ou tento. 
Mesmo quando o peito dói, mesmo quando o ar parece escasso. Eu ainda estou aqui, tentando encontrar beleza nos fragmentos, nos pedaços que sobram de mim.

E se você chegou até aqui, talvez tenha encontrado um pouco de si mesmo nessas palavras. E eu sinto muito -  pra caralho - por você, irmão! Que merda.

Eu não acho que a cada vez que eu decidir falar ou escrever sobre isso vai ficar mais fácil,  mas acho que existe saída, fuga, distração... há uma beleza estranha, uma beleza que lateja, que respira, que existe, que me salva. Mesmo que seja apenas por um momento, mesmo que seja apenas em um suspiro.
É só pra me lembrar...
Eu estou aqui, respirando.
E você também está.
E eu não posso fazer nada por você.


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